Dia da Toalha – O Guia do Mochileiro das Galáxias
O texto que se segue foi escrito em inúmeras etapas – cada vez que eu ia buscar referências em algum dos livros eu resolvia ler um pouco mais e inexplicavelmente tinham se passado duas horas – e regado a muita dinamite pangaláctica.
O Guia do Mochileiro das Galáxias é uma série ficção científica de Douglas Adams, baseada em um programa de rádio do mesmo autor de 1978, que virou uma série de seis episódios da BBC e um filme em 2005. É uma trilogia de quatro livros, que por acaso são cinco, que conta as aventuras de Arthur Dent, Ford Prefect, Zaphod Beeblebrox, Trillian, e o melhor de todos, Marvin, o robô maníaco depressivo.
Quando eu comprei essa série, confesso que não sabia nada sobre ela. Geralmente os livros que eu compro na louca me rendem ótimas surpresas – como o excelente livro de aventura Choque Mortal – enquanto outros muito bem recomendados provavelmente viram uma decepção – vide A menina que não sabia ler.
Mas minha única referência para o Guia era “Superdesconto Submarino! Toda a coleção Guia do Mochileiro das Galáxias por apenas R$29,90!”. E foi uma das melhores surpresas da minha vida. Provavelmente melhor que o dia em que eu perdi a… Ahnn, foi a melhor surpresa da minha vida, com certeza.
Os livros pingam ironia, tiram sarro de si mesmos, aplicam conhecimentos gerais, física, biologia, astronomia, matemática, filosofia, teologia, cultura geral e geek praticamente o tempo todo. E, mais importante, trolla o leitor constantemente.
Exemplo:
– Sabe – disse Arthur – é em ocasiões como essa, em que estou preso em uma câmara de descompressão de uma espaçonave vogon, com um sujeito de Betelgeuse, prestes a morrer asfixiado no espaço, que realmente lamento não ter ouvido o que minha mãe me dizia quando eu era garoto.
- Por quê? O que ela dizia?
- Não sei. Eu nunca escutei.
E você pensando que viria um conselho materno ótimo, né? BAZZINGA!
Não sei vocês, mas sempre separei, instintivamente, as pessoas ao meu redor se gostavam ou não de Simpsons. Se não, automaticamente as tratava de um jeito diferente. De cabeça, agora, me lembro de umas quatro pessoas, e já peço desculpas antecipadamente: a culpa não é minha se meu subconsciente prefere pessoas que apreciam a boa e fina sátira! Minha consciência apenas segue ordens!
Depois de separar as pessoas nessas categorias, eu ia para casa, assistia a algumas temporadas em Springfield. Depois ia ler uns capítulos do Guia. E ver outros episódios de Springfield.
E me perguntava: COMO é possível alguém não gostar disso!?
Sério, não entendo. Se o estilo dele fosse difícil de ser compreendido – como João Guimarães Rosa – ou fosse extremamente descritivo – como Tolkien – com muito esforço, eu até entenderia.
E só leio Senhor dos Aneis porque acho que o enredo supera e muito qualquer necessidade de um jeito certo de contar uma história. Poderia ser contada em forma de hai cai, que ainda assim seria uma das melhores histórias já escritas.
Foco, Sarah, foco… Você fala sobre isso outro dia…
Mas sério, eu não entendo.
Ora bolas caraminholas, quantos autores de sci-fi você conhece cujo personagem SECUNDÁRIO – O Pensador Profundo – conseguiu a Resposta Final para A Grande Pergunta que aflige a humanidade, sobre A Vida, o Universo e Tudo Mais?
Quantos autores ateus você conhece que provam a existência e a inexistência de Deus no mesmo parágrafo?
Quantas explicações para o fato do ser humano falar o óbvio constantemente você conhece que são melhores do que se não exercitarem seus lábios constantemente, seus cérebros começam a funcionar?
Mas sério, eu não entendo.
E só aceito duas boas explicações para esse desgosto: ou você tem ataques epiléticos inexplicáveis quando lê/ouve a palavra “galáxia”, ou você tem síndrome de Asperger, que um dos sintomas apresentados é a incapacidade de se entender o sentido metafórico de expressões, tais como ironia.
Teste rápido de sarcasmo:
Você gosta desse cara?
Se não gosta porque é irritante ver ele mancando por oito anos, eu até entendo. Se não gosta porque ele é ácido, bem… Podemos falar sobre Ursinhos Carinhosos, se você quiser.
Ou não.
Bem, o sarcasmo do livro é bem mais livre do que o de House. Ninguém, na galáxia inteira fica te falando “oooooooooooh o seu sarcasmo é ácido, por isso você afasta a todos e não quer amar ninguém, bla bla bla”. Ao contrário, você pode até mesmo ser o Presidente da Galáxia! Se bem que todo mundo sabe que a função do presidente é desviar a atenção do poder, e que o verdadeiro poder é controlado por alguém que conversa com uma mesa. Mas mesmo assim, ninguém diz pro presidente “seu sarcasmo protege seu coraçãozinho, mas eu quero amá-lo!”
Malditas mulheres, sempre estragando os melhores seriados.
Não, no Guia, você lê trechos como esse:
O robô fez um gesto, levantando a mão.
- Eu venho em paz – anunciou ele, acrescentando após um longo momento de esforço adicional -, levem-me ao seu lagarto.
Ford Prefect, é claro, tinha uma explicação para aquilo tudo.
- Ele vem de uma democracia muito antiga, sabe…
- Você está querendo dizer que ele vem de um mundo de lagartos?
- Não – respondeu Ford que, àquelas alturas, já estava um pocuo mais racional e coerente do que antes, tendo finalmente sido forçado a tomar uma xícara de café -, nada tão trivial. Nada assim tipo isso tão compreensível. No mundo dele, as pessoas são pessoas. Os líderes é que são lagartos. As pessoas odeiam os lagartos e os lagartos governam as pessoas.
Ué – comentou Arthur -, achei que você tinha dito que era uma democracia.
- Eu disse – afirmou Ford. – E é.
- Então – quis saber Arthur, torcendo para não soar ridiculamente estúpido -, por que as pessoas não se livram dos lagartos?
- Isso sinceramente nunca passou pela cabeça delas – disse Ford. – Como elas têm direito de voto, acabam supondo que o governo que elegeram é mais ou menos parecido com o governo que querem.
-Quer dizer que eles realmente votam nos lagartos?
-Ah sim – disse Ford, dando de ombros -, é claro.
- Mas – perguntou Arthur, sem medo de ser feliz – por quê?
- Porque, se deixam de votar em um lagarto, o lagarto errado pode assumir o poder. Você tem gim?
E nenhuma mulher vai reclamar que Ford Prefect não quer amar ninguém.
E quando você começar sua busca pelo conhecimento do Guia, ouça seu coração e ignore a ignorância (oi?) ao seu redor. Pessoas dirão que o livro é pura ficção e entretenimento. Dirão que nada daquilo é real. Que devemos largar o Guia e sair ao sol, pelo menos uma vez por semana. Que relógios digitais são uma boa ideia.
Não acredite nessa gente.
Em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, aprendi algumas verdades sobre o mundo, e também que estou no setor mais sem graça do universo, onde a toalha não tem o seu devido valor reconhecido. E aprendi a temer a Chegada do Grande Lenço Branco. E aprendi qual é o sentido da vida.
Em O Restaurante no Fim do Universo eu tive uma aula de filosofia melhor que todas as que eu tive no colégio e na faculdade somadas. Descobri a verdadeira origem da girafa, e também quanto é seis vezes sete.
Em A Vida, o Universo e Tudo Mais, aprendi sobre como a sociedade funciona melhor do que qualquer sociólogo por aí poderia explicar. E que um sofá vermelho flutuando numa Terra pré-histórica tem mais importância do que você pensa.
Em Até mais, e obrigado pelos peixes! aprendi mais sobre física, química e astronomia que o próprio Mundo de Beakman pôde ensinar. E aprendi a rezar por Bob.
Em Praticamente Inofensiva, aprendi que nada é o que parece, e nem tudo tem o final que você deseja.
Em E tem outra coisa… eu não aprendi nada, pois ainda não li. Não foi escrito por Douglas Adams, e sim por Eoin Colfer.
Espera, o quê?
Sim, isso mesmo. Parece que muita gente não ficou feliz com o final do quinto livro – também, pudera né? – e, com a devida autorização e supervisão da família Adams (aposto que foi ideia da Mortícia… #badumtsss), foi feito um concurso para escrever o último livro. É considerado um final alternativo ao quinto livro, o que é estranho, porque o quinto livro já é considerado um final alternativo para a série.
Poizé, vai entender esses empresários e sua fome de lucros…
É sério, eu costumo recomendar essa série a qualquer um que saiba ler. Se você ler e não gostar, por favor, não espalhe. Diga que você é analfabeto, diga que só lê em aramaico e não traduziram ainda, diga que se não puder ler ao contrário sem aparecer uma mensagem do demônio não tem graça, DIGA QUALQUER COISA, mas não diga que não gostou.
Por favor.
O que eu tento dizer nesse texto é que essa série me fez abrir uma nova categoria de livros na minha cabeça. A categoria “Estilo-Guia”. Bem ao lado de “Estilo-Luis-Fernando-Verissimo” (na minha opinião o único que poderia se equiparar a Douglas em humor).
Talvez por isso eu relutasse tanto em assistir ao filme. Afinal, como poderiam traduzir em imagens, por exemplo, toda a indignação que Wonko, o São, sente pela humanidade? Como explicar a vidinha pacata que Arthur tentava levar pela galáxia, sem perder pelo menos quarenta minutos?
Tinha medo, muito medo…
Mas após muita insistência, dois litros de vodka e principalmente sutis ameaças de exposição pública de certas fotos íntimas, eu finalmente aceitei, esperando qualquer coisa dessa película. Qualquer coisa mesmo. Se a Samara saísse da tela eu não me surpreenderia.
E enquanto todos ao meu redor riam às lágrimas com Zaphod, ou se indagavam sobre a criação do motor da improbabilidade infinita, eu me peguei admirando e babando em silêncio sobre a genialidade sem fim de Adams; como ele conseguiu fazer uma sinopse de cinco livros com assuntos aparentemente sem nexo, e transformá-los em um filme que fizesse sentido; como ele teve a grande sacada da Arma do Ponto de Vista e dos seres Perseguidores de Ideias no solo de Magrathea; como o filme conseguiu caracterizar os vogons à perfeição; como diversos símbolos dos livros foram inseridos, mesmo sem terem conexão com a história do filme (os caranguejos feitos de pedras preciosas e a estátua de Arthur que Agrajag fez sequer são mencionados pelos personagens, mas estão lá); como ele conseguiu até mesmo colocar alguns velhos clichês cinematográficos aparentemente obrigatórios (por favor, acha mesmo que Douglas Adams iria fazer espontaneamente um final tão ruim assim para Arthur e Trillian?), e ainda assim arrancar aplausos da plateia.
Claro que o filme ainda não se compara à série. Isso nunca aconteceu, exceto em Game of Thrones. Mas supera as expectativas, e ainda assim com certeza é um filme diferente de todos os outros.
Talvez O Guia do Mochileiro das Galáxias seja que nem Os Simpsons. Tem que ter um motivo muito bom para não gostar. Como ser um vogon, sei lá.
Com certeza a conversa mais interessante do mundo seria entre House, Douglas Adams, Luis Fernando Verissimo e Homer Simpson. Principalmente porque a parte de Adams teria que ser mediada por um médium(oi?²), já que ele morreu no dia 11 de maio de 2001. E o mundo chorou com isso. E todos se uniram e elevaram suas varinhas aos céus para sumir com a Marca Negra para fazer uma homenagem a um dos maiores gênios da humanidade, criando o Dia da Toalha. O dia 25 de maio foi escolhido tanto porque foi a data do lançamento do livro quanto para fazer uma junção com Dia de Star Wars (quando estreou o primeiro filme, em 25 de maio de 1977) e também pelo “Glorioso 25 de Maio” para os fãs da série de fantasia Discworld; tudo isso juntou-se dando origem à Santíssima Trindade do Dia do Orgulho Nerd. No caso do Guia, dia pessoas desfilam com suas preciosas toalhas – essenciais para um mochileiro das galáxias – por aí.
(Não SÓ de toalha, por favor, que esse mundo ainda é um mundo de família.)
Simples, e ao mesmo tempo simboliza a importância que O Guia do Mochileiro das Galáxias tem para nós: nos sujeitamos a ser linchados por playboys na rua só para declarar o nosso amor.
Parabéns, Douglas Adams. Feliz Dia da Toalha pra você, e Feliz Dia do Orgulho Nerd a todos nós.
Que a toalha esteja com você.


















